O Tempo de Crise e O Imaginário Profético

O Tempo de Crise e O Imaginário Profético


Autoria: John Skrzypaszek


O artigo “O Tempo de Crise e O Imaginário Profético.” (Original em Inglês: “The Time of Crisis and Prophetic Imagination”), por John Skrzypaszek, fora apresentado primeiramente no encontro anual da Adventista Society for Religious Studies [Sociedade Adventista para Estudos em Religião], San Antonio, Texas, em novembro de 2016.  Usado com permissão.


1. Introdução

Este artigo explora a correlação entre a visão do Grande Conflito (Lovett Grove, 1858) e a visão de Saúde (Ostego, 1863) de Ellen White no contexto da Guerra Civil dos Estados Unidos (1861-1865). Defende que as condições sociais, políticas e religiosas prevalecentes da sociedade estadunidense, e a falência espiritual entre os adventistas sabatistas prepararam o terreno para o ingresso de uma nova visão profética em um tempo de crise paradoxal.

Douglass se refere ao século 19 como uma “era de transição de séculos de pensamento tradicional” e um “tempo de fermentação.”1 Esta fermentação ocorreu cada “área da vida estadunidense, incluindo teologia, filosofia, medicina, industrialização e educação.”2 Em contraste, observa-se um ser humano ansioso por justiça, fim da opressão, e liberdade para nutrir o valor, a singularidade e o potencial humano em um ambiente de liberdade. A tensão entre o progresso e a coerção serviram de alavanca para o envolvimento visionário de Deus na complexidade de um mundo em transformação que visava revitalizar o movimento crescente com um novo propósito espiritual para a vida no tempo escatológico de espera para o Segundo Advento. A contribuição literária de Ellen White, entre 1888 e 1911, pavimentou um caminho visionário e espiritual que engrandecia o valor humano, a singularidade e o potencial para o propósito missionário concebido por Deus. Além disso, o imaginário profético inspirado ofereceu um ponto de referência relacionalmente orientado ancorado em uma convicção e confiança implícita em Deus.

2. O Tempo de Crise

A Revolução Industrial, com seus avanços tecnológicos, invenções científicas, e descobertas médicas, fez surgir uma aura de futuro esperançoso.. Atrelada a esta visão de progresso, as expectativas mileniais motivaram reavimentos religiosos e trabalhos missionários em preparação para a inauguração do reino de Deus na terra. Estudando as origens da consciência messiânica, tão profundamente enraizada na psiquê estadunidense, Handy sugere que até 1860 “um arco importante na ponte de conceitos bíblicos de eleição para uma afirmação sociorreligiosa do destino nacional havia sido erguido.”3

A Guerra Civil (1861–1865) marcou o início de um tempo de crise complexo. Identificada como uma guerra religiosa,4 preservada na mente dos campos opostos de uma convicção de que “a causa deles era a causa de Deus, e que o verdadeiro destino nacional estava em suas mãos” e eles “utilizaram a retórica da eleição e do destino ao interpretar a batalha.”5 Matthisen categoriza: “A retórica religiosa afirmava apoio divino em prol de cada lado antes, durante, e por décadas após a guerra.”6 Mais trágico foram as ações geradas por tais convicções focadas no eu. “De políticos a soldados e capelães, uma “lógica divina” convenceu muitos americanos que Deus agiria em favor da causa certa.7 Neste sentido, o envolvimento de Deus na vida do homem caiu sob o escrutínio das percepções humanas, e, tragicamente, foi usado para infligir e justificar ações genocidas. Ironicamente, o centro do conflito era uma preocupação com o valor da vida humana, e um anseio por justiça. A questão da escravidão afundou os Estados Unidos “na maior crise que enfrentou desde que se tornou independente.”8 Esta crise foi consequência de práticas sociais que desvalorizavam a vida humana, a religião, e as expectativas pós-mileniais do idealismo secular.

Além disso, o conflito acentuou uma crise espiritual, a saber, uma desorientação a respeito do envolvimento de Deus na vida humana e na história. Handy argumenta: “Quando a guerra terminou, líderes cristãos de ambos os lados procuraram discernir qual rumo a nação reunida deveria tomar à vista de Deus.”9 Como observado por Foner, emancipação “significava mais do que o fim do sistema [escravo] de trabalho.”10 Em vez disso, deu início a um tempo de reconstrução para redefinir a vida dos menos favorecidos na sociedade, e o “significado de liberdade na república estadunidense.”11 Como sugerido por Noll, a busca por uma nova compreensão enfrentou os seguintes desafios: primeiro, uma vez que ambos os lados estavam tão convictos da presença do apoio de Deus, o pós-guerra levou a a uma “baixa” espiritual, e “pode ter gerado graves danos à confiança inata na Bíblia.” Segundo, o crescimento em “grande escala da “industrialização” e das “burocracias” nos estados do norte mudaram as dinâmicas sociais, transformando comunidades rurais em urbanas. Consequentemente, a atenção das pessoas foi desviada para interesses materiais, focando-se no bem-estar.12

A Guerra Civil colocou os adventistas sabatistas em uma encruzilhada de um dilema moral e ético sobre a escravidão. Como defendido por Morgan, os adventistas interpretados tanto a guerra quanto a questão da escravidão “à luz do juízo e da redenção apocalípticos.” No entendimento de Ellen White, a Segunda Vinda libertaria os oprimidos da escravidão.13 No entanto, a aparente demora concentrou a atenção dela na condição espiritual da igreja.14 Já em 1855, ela começou a identificar problemas espirituais específicos. Suas ponderações eram claras e nítidas. Ela apontou que a verdade não estava internalizada, e, em consequência, houve uma falta de fé. “Uma forma de piedade não salvará ninguém. Todos devem possuir profunda e viva experiência” com Deus.15 Ela também abordou uma série de outros problemas. Ela apontou: “O sábado não tem sido observado. Alguns têm prolongado o trabalho dos seis dias até o sétimo.”16 Ela observou ainda que a “espiritualidade decadente” redirecionava a atenção dos crentes a encontrar defeitos. Eles zelavam sobre como manter seus companheiros crentes na retidão.17

Estas condições geraram um tempo de crise, exigindo uma injeção de uma renovada motivação inspiracional. Em outras palavras, o tumulto generalizado fez surgir a necessidade de uma nova compreensão da vida orientada para o futuro, vista da perspectiva de Deus. Colocou também os fundadores do movimento no limiar de grandes mudanças na teologia, filosofia, medicina, industrialização e educação, um momento de efervescência ideológica na busca humana por sentido.18

3. O Tempo de Crise e O Imaginário Profético

Um tempo de crise provoca uma dissonância desconfortável “na vida e na fé,”19 pois acaba com sonhos e expectativas de esperança. A Guerra Civil dispersou o sonho utópico de um mundo perfeito, demonstrando que a mente humana não é apenas capaz de criar visões de esperança, mas, também, capaz de causar de promover destruição física e espiritual. Os paradoxos daquela crise constituíram uma lixeira para se jogar fora as esperanças com base em sonhos humanos, e expectativas para uma compreensão mais clara dos propósitos de Deus. Como argumentado por Bruggemann, era um espaço onde “a governança poderosa de Deus está ordem idólatra vigente da vida pública e gerando uma nova ordem segundo a vontade de Deus no mundo.”20 Este espaço proporcionou a oportunidade para Deus, “que é uma poderosa fonte de esperança,” a injetar na vida humana uma nova visão e um novo entendimento. Essa visão gerou um desafio para a comunidade de fé, tanto para abandonar velhos conceitos quanto para receber um quadro inspirador para uma nova perspectiva de vida orientada para o futuro. Tal entendimento visionário nunca é desafios sociais e culturais existentes; em vez disso, ele toma a forma de um processo incremental ou uma metamorfose gradual dentro das emaranhadas estruturas sociais existentes.

Com este pano de fundo, este estudo passa para explorar o surgimento gradual do tema do Grande conflito e a consciência holística da saúde como o centro do imaginário profético inspirado que injetou uma reorientação espiritual revelando o propósito de Deus para a jornada da vida no tempo escatológico de espera do Segundo Advento. Defende, também, que a voz profética de Ellen White desempenhou um papel significativo em preparar o movimento para a recepção do novo e complexo mundo.

4. O Tema do Grande Conflito e A Consciência Holística da Saúde

Em meados de março de 1858, antes do início da Guerra Civil, Ellen White recebeu a visão do Grande Conflito com instruções claras para escrever sobre.21 O coração da visão revelou a realidade do conflito entre o bem e o mal, entre Deus e Satanás, desde a sua criação até o fim do tempo. Em vez de escrever a partir de uma descrição individualista, ela desenvolveu uma perspectiva ampla sobre este tema entre 1858 e 1888.22

Enquanto a Guerra Civil precipitou uma crise quanto à autenticidade do envolvimento de Deus na vida do homem, o tema do Grande conflito preparou primeiros adventistas sabatistas a enxergar as batalhas e conflitos humanos a partir de um panorama inspiracional do desfecho vitorioso do triunfo final de Deus.23 Em contraste com a escravidão física e espiritual, destacou o valor dado por Deus a liberdade de escolha e a visão de um mundo novo.24 Inspirou os crentes a enfrentar os desafios da vida com um senso de nova identidade em um ambiente espiritual que nutriu o valor, a singularidade e o potencial humanos.

Revendo a importância do tema do Grande Conflito, Ellen White enfatizou seu foco quintessencial: “Há uma grande verdade central a ser conservada sempre em mente ao esquadrinharem-se as Escrituras — Cristo e Ele crucificado.”25 Sob a luz desta ênfase, ela explorou a sua aplicação visionária. “Quando Cristo, em Sua obra de redenção, é reconhecido como a grande verdade central do sistema de verdades, nova luz se derrama sobre todos os acontecimentos do passado e do futuro. São vistos em uma nova relação, e possuem sentido novo e mais profundo.”26 Na compreensão de Ellen White, o tema fundamental da grande metanarrativa encontra seu lócus no ato salvífico de Deus—Jesus Cristo. O enredo do tema do Grande Conflito deu luz a uma motivação reconfortante que Deus, o Criador, é um agente ativo no mundo, Aquele que desafia a comunidade de fé, tanto para abandonar velhos conceitos quanto receber um quadro visionário de uma nova perspectiva de vida orientada para o futuro.

A nova de vida orientada para o futuro foi depois reforçada pela visão de saúde de Otsego recebida na sexta-feira de 5 de junho de 1863, durante a oração de início do sábado. Esta visão revelou uma aplicação prática do que Ellen White mais tarde referia como o “uma verdade central – Cristo, e Ele crucificado.” Em 6 de junho, ela escreveu a seguinte reflexão: “foi-me mostrado algumas coisas em relação ao meu marido e a mim.”27 O coração da visão tirou a atenção dela de atividades frenéticas, tristezas, frustrações e decepções relacionais, para focar a atenção dela no que Deus se preocupa, a saber, o valor e a singularidade da vida humana.28 A visão focada no sábado mudou para a ênfase na cura do corpo para o coração da questão, a relevância da nutrição espiritual— um lugar para a cura do coração, da mente e das atitudes humanas—um modelo motivacional e inspiracional para o caminho para a vida visionária de Deus.29

A caminho divinamente pavimentado do Grande Conflito e as visões de saúde almejavam reenergizar o movimento crescente com um novo propósito espiritual para a vida no tempo de espera escatológico. Como sugerido por Bruggemann: “Esses poetas [profetas] não só discerniram as novas ações de Deus que os outros não discerniram, mas eles fizeram as novas ações de Deus pelo poder e pela imaginação, suas línguas, suas palavras.”30

Tais declarações foram sempre é relevantes para o tempo e lugar deles, mas, ao mesmo tempo, elas inspiraram a recepção de um novo mundo dado por Deus por meio desses profetas.31 No contexto da crise emergente da Guerra Civil, o Grande Conflito e as visões de saúde compartilharam compartilharam um propósito correlato em pavimentar um caminho de motivação inspiracional para um novo modo de existência pública.

5. O Caminho da Visão Criativa

O período de reconstrução do pós-guerra (1865–1877) envolveu a nação em conflitos políticos e sociais. A libertação da escravidão longamente batalhada levou a um lento processo integrador dos ideias de liberdade, igualdade, e valor para todos na estrutura da vida social e política da nação Durante esse tempo, a recém-organizada Igreja Adventista do Sétimo dia enfrentou o desafio de entrar para o terreno de um mundo em transformação progressivo.

Este estudo defende que a compreensão progressiva de Ellen White tema do Grande conflito contribuiu para a sua compreensão profunda coração de Deus e de Seu propósito para a vida no mundo esfacelado. Enquanto o período de reconstrução na sociedade estadunidense almejava integrar a visão perdida do valor intrínseco da vida humana e de seu propósito, Ellen White passou por um período de reconstrução espiritual, aplicando os princípios do Grande conflito e da [Mensagem de Saúde] para uma vida que os crentes falharam em discernir.

O ano de 1888 viu a publicação do livro O Grande Conflito entre Cristo e Satanás, o culminação de uma jornada literária de 31 anos que expandira o tema por 8 volumes.. O livro foi republicado em 1911 com o título atual, O Grande conflito. No entanto, deve ser notado que durante os 23 anos de 1888 a 1911, Ellen White publicou todas as suas obras mais significativas.32 Durante a parte final de sua jornada espiritual, ela retomou os elementos quintessenciais, do propósito de Deus para a jornada contínua da fé. Durante este período de visão criativa (1888–1911), as suas reflexões sobre a presença comunicativa de Deus a inspirou com vislumbres de novas realidades, uma recepção de um novo mundo dado por Deus.

O tempo e o espaço não permitem uma análise abrangente de todos as suas obras publicadas durante este período. No entanto, no contexto do tema do Grande conflito e da visão holística de bem-estar, este trabalho sugere a presença dominante de quatro tópicos: a autenticidade espiritual, relacionamentos genuínos, desenvolvimento profissional e identidade pessoal. Esses tópicos formaram um quadro inspiracional exaltando o valor humano e o potencial para o propósito estabelecido por Deus. Para Ellen White, essas quatro características listadas surgiram da fonte de toda a sabedoria: Deus. Sua ênfase ao longo da vida, particularmente durante a parte final de sua jornada, acentuou a importância da vida espiritual brotando de um relacionamento pessoal com Deus. Ela escreveu: “Todos têm de ter experiência pessoal na obtenção do conhecimento da vontade divina. Precisamos ouvir individualmente Sua voz a nos falar ao coração.” Ele defendia que um relacionamento pessoal com Deus aumenta a autenticidade espiritual, e, por sua vez, sua influência estimula uma paz e uma revitalização “por entre a turba apressada e a tensão das febris atividades da vida.”33

Além disso, ela considerou que a autêntica espiritualidade contribui para o desenvolvimento de relacionamentos genuínos. “A vida exalará fragrância, e há de revelar um divino poder que atinge o coração dos homens.”34 Ellen White argumentou que “é impossível estar em união com Cristo e ainda ser desconsiderados para com outros e negligentes de seus direitos,” pois “muitos anseiam intensamente por amizade e simpatia.”35 Em seu entendimento, foco espiritual não era um fim em si, mas, preferivelmente, uma preparação de um terreno fértil para o desenvolvimento próspero dos talentos e das habilidades dadas por Deus.36 Pare este propósito, autenticidade espiritual, relacionamentos genuínos, e um senso de identidade pessoal saudável constituem o coração e a singularidade da motivação visionária de Ellen White. Em relação a isso, suas visões contrastam grandemente com a perspectiva desvalorizada da vida humana durante e depois da crise da Guerra Civil. Ela viu que, enquanto as forças destruidoras do mal diminuir o valor da vida humana, a presença de Deus inspira e restaura o seu valor. Neste contexto, ela encorajou os crentes a formar um ponto de referência não em especulações orientadas no tempo, mas na confiança e segurança implícita em Jesus no mundo em transformação progressiva.37

Durante o seu período de visão criativa, suas reflexões sobre presença comunicativa de Deus inspiraram a sua mente com um novo foco, um significado contextualizado de experiência orientada na fé com Jesus em relação à jornada da vida. Neste espaço, as suas reflexões assumem uma forma motivacional. Halas sugere que este tipo de memória reflexiva “não pode ser reduzida apenas ao conjunto de ideias sobre o passado porque está ligado com a ação, e, assim, orientada para o futuro.”38 O processo reflexivo “determina a transmissão de significado que será formativa para o futuro.”39 Em vez de moldar uma fórmula de religiosidade rígida, prescritiva e autoritária, as visões inspiraram Ellen White a revitalizar a igreja com um novo propósito espiritual para a vida e a missão. A figura 1 ilustra o objetivo focal da visualização profética de Ellen White do propósito de Deus para a igreja: a) uma vida relacional espiritualmente ancorada nos ensinamentos de Jesus; b) uma visão holística da vida espiritualmente transformacional; c) propósito de vida espiritualmente missional. Neste contexto, o impulso de seu ímpeto visionário se moveu para além do recolhimento de memórias, tanto bíblicas quanto experienciais. Ela as imergiu na profundidade da natureza transformacional do amor de Deus. “Maravilhosa será a transformação operada naquele que, pela fé, abre a porta do coração ao Salvador.”40 A voz do imaginário profético chamou por ações formativas para o futuro, a saber, a injeção do amor de Deus em abordagem espiritualmente orientada para a missão.

A qualidade relacional, transformacional e missional da vida cristã encontrou seu locus em sua obra de arte visionária, Educação (1903). Esta obra deu aplicação prática para o caminho visionário de Deus para a vida no contexto do tema do Grande conflito.41 Ellen White argumentou: “A verdadeira educação significa mais do que avançar em certo curso de estudos.”42 Em vez disso, em meio ao conflito entre o bem e o mal, a verdadeira educação tem dois alvos: “a preparação para a vida presente” em termos do “gozo do serviço neste mundo” e a preparação “para aquela alegria mais elevada por um mais dilatado serviço no mundo vindouro.”43 A visão bidimensional da educação foi centrada no “conhecimento de Deus,” isto é, “todo o saber e desenvolvimento real têm sua fonte no conhecimento de Deus.”44

O centro da vida cristão orientado na fé forneceu “o desenvolvimento harmônico das faculdades físicas, intelectuais e espirituais”45 com um propósito designado por Deus para um “serviço altruísta,”46 baseado nos princípios que “que deles farão uma força positiva para a estabilidade e o erguimento da sociedade.”47 Nesse quesito, ela não apoiou a mediocridade, mas, em vez disso, encorajou o desenvolvimento de competências profissionais até o mais alto grau.48 No entanto, ela encorajou um forma de ver vida através das lentes da eternidade, em outras palavras, através das lentes do princípio do amor incompreensível de Deus que abre um entendimento do que mais importa para ele. Ela expressou este ponto diplomaticamente em A Ciência do Bom Viver (1905).

A vida de Cristo estabeleceu uma religião em que não há diferenças, a religião em que judeus e gentios, livres e servos são ligados numa fraternidade comum, iguais perante Deus. Nenhuma questão política Lhe influenciava a maneira de agir. Ele não fez diferença entre nativos e estrangeiros, amigos e inimigos. O que tocava Seu coração era uma alma sedenta pelas águas da vida. Não passava nenhum ser humano por alto como indigno, mas procurava aplicar a toda pessoa o remédio capaz de sarar.49

A nova perspectiva orientada para o futuro desafiou a igreja a quebrar as barreiras colocadas pelas tradições humanas para prover, independentemente de raça e de gênero, nutrição espiritual que restaura o valor, a dignidade e o potencial humano. Nesta visão, Ellen White se moveu para além das funções e das atividades das estruturas organizacionais. Em seu ponto de vista, uma visão de igualdade para todos era revitalizar o movimento crescente com um novo propósito espiritual para a vida. Como apontado por Brueggemann: “É a tarefa do profeta expressar as novas realidades contra as realidades da antiga ordem. Somos impelidos não pelo que já possuímos, mas pelo que é prometido ser ganho.”50 Delineando a natureza todo inclusiva do propósito missional de Deus, ela escreveu:

Cada membro deve ser um conduto através do qual Deus possa comunicar ao mundo os tesouros de Sua graça, as insondáveis riquezas de Cristo. Nada há que o Salvador deseje tanto como agentes que representem ao mundo Seu Espírito e Seu caráter. Nada existe que o mundo necessite mais do que a manifestação do amor do Salvador através da humanidade.51

Sua visualização de um novo mundo dado por Deus combinou com uma perspectiva motivacional ainda mais profunda, verticalmente orientada. “Todo o Céu está à espera de homens e mulheres por cujo intermédio possa Deus revelar o poder do cristianismo.”52 A experiência de partilhar o poder da graça de Deus na complexidade de um mundo em constante transformação preparou a igreja para a maior alegria do serviço no mundo vindouro—serviço que fluirá por toda a eternidade a partir das mais completas “revelações de Deus e de Cristo.”53

Este artigo conclui que, no contexto da crise descrito, o Grande conflito e visões de saúde compartilharam um propósito correlacionado em moldar um caminho visionário e inspiracional para um novo modo de existência no mundo em transformação. O documento também sugere que a contribuição literária de Ellen White entre 1888 e 1911 enriqueceu a igreja com um caminho motivacional aumentando o valor humano, de ser único, a singularidade e o potencial para o propósito concebido por Deus. Importantemente, o seu imaginário profético direcionou a atenção para ponto de referência relacional seguro em uma relação de convicção e confiança implícita em Deus. Proporcionou, também, uma convicção reconfortante na presença de Deus, e um desafio para seguir a Sua visão para a existência pública em um mundo em transformação.


Notas

1 Herbert E. Douglass, Messenger of the Lord: The Prophetic Ministry of Ellen White (Nampa, ID: Pacific Press, 1998), p. 344.

2 Ibid.

3 Robert T. Handy, “The American Messianic Consciousness: The Concept of the Chosen People and Manifest Destiny.” Review & Expositor 73, no 1 (Winter 1976): 52. Ver, também, Malcolm Bull, “The Seventh-day Adventists: Heretics of American Civil Religion.” Sociological Analysis 50:2 (1989): 180.

4 Mark A. Noll, The Old Religion in a New World: The History of North American Christianity (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2002), pp. 109–112. Charles H. Lippy, Introducing American Religion (New York, NY: Routledge, 2009, pp. 127–130. Edwin S. Gaustad e Mark A. Noll ee., A Documentary History of Religion in America to 1877 (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2003), pp. 517–519. Mitchel Snay, “Religion, the Origins of Southern Nationalism and the Coming of the Civil War” em Robert R Mathisen, e. Critical Issues in American Religious History (Waco, Texas: Baylor University Press, 2006), pp. 345–350.

5 Handy, “The American Messianic Consciousness,” p. 52. Ver, também, Alan Johnson, “The Bible and War in America: An Historical Survey.” JETS 28/2 (June 1985): 174–75.

6 Robert R. Mathisen, e. “Religion and America’s Civil War: How did religion impact the Civil War?” em Robert R Mathisen, e. Critical Issues in American Religious History (Waco, Texas: Baylor University Press, 2006), p. 332.

7 Ibid.

8 Richard, W Schwarz e Floyd Greenleaf, Light Bearers: A History of the Seventh-day Adventist Church (Nampa ID: Pacific Press, 1995), p. 95.

9 Handy, “The American Messianic Consciousness,” p. 52.

10 Eric Foner, America’s Unfinished Revolution 1862-1877 (New York: Perennial Classics, 2014), pp. 2–3.

11 Ibid.

12 Noll, The Old Religion in a New World, p. 110.

13 Douglas Morgan, “Civil War,” em Denis Fortin e Jerry Moon, ee., The Ellen White Encyclopedia (Hagerstown, Maryland: Review and Herald, 2013), p. 718.

14 Gulley observa que, em referências à Segunda Vinda, Ellen White disse: “está proxima.” Norman R. Gulley, “Second Coming of Christ” em Denis Fortin e Jerry Moon, ee., The Ellen White Encyclopedia (Hagerstown, Maryland: Review and Herald, 2013), p. 1140. Ver, também, Herbert Douglass, “Second Coming delay of” em Denis Fortin e Jerry Moon, ee., The Ellen White Encyclopedia (Hagerstown, Maryland: Review and Herald, 2013), pp. 11441–43.

15 Ellen White, Testemunhos para A Igreja, p. 125. Ver, também, pp. 119–120.

16 Ibid., p. 150.

17 Ibid., p. 145.

18 Douglass, Messenger of the Lord, p. 344.

19 Walter Brueggemann, Hopeful Imagination: Prophetic Voices in Exile (Philadelphia: Fortress Press, 1986), p. 4.

20 Ibid.

21 Ellen White, Life Sketches (Mountain View, CL: Pacific Press, 1943), p. 162.

22 Ainda que Ellen White tenha recebido a visão do Grande Conflito em março de 1858, ela declarou: “Nesta visão em Lovett’s Grove, a maior parte da matéria que eu vira dez anos atrás quanto ao grande conflito foi repetida, e fui instruída a escrevê-la.” Ellen White, Life Sketches, p. 162. Isso sugere que ela estava bastante familiarizada com a realidade do conflito entre o bem e o mal já no início de 1848. No entanto, em 1858, antes do início da Guerra Civil, ela fora instruído a escreve-la. Ellen White desenvolveu o tema do Grande Conflito nos seguintes livros: Spiritual Gifts Volume 1 (1858), Spiritual Gifts Volumes 3 e 4 (1864), The Spirit of Prophecy, Volumes 1–4 (1870-1884), e O Grande Conflito entre Cristo e Satanás (1888).

23 Douglass aponta que “muitos estudiosos têm identificado princípio unificador de Ellen White como o tema do Grande conflito. Isto proporcionou um quadro coerente para os seus pensamentos teológicos, bem como os seus princípios em educação, saúde, missiologia, questões sociais e ambientais.” Douglass, Messenger of the Lord, p. 256.

24 Ellen White, Patriarcas e Profetas, p. 48. “Deus os fez como entidades morais livres, capazes de apreciar a sabedoria e benignidade de Seu caráter, e a justiça de Suas ordens, e com ampla liberdade de prestar obediência ou recusá-la.”

25 Ellen White, Ms. 31,1890. “Circulação do Grande Conflito.”

26 Ibid.

27 Ellen White, Ms. 1, 1863.

28 John Skrzypaszek, “The heart of the Seventh-day Adventist health message.” Ministry: International Journal for Pastors, 86 (12, 2014), pp. 6–8.

29 Ibid., p. 8

30 Brueggemann, Hopeful Imagination: Prophetic Voices in Exile, p. 2.

31 Ibid.

32 As principais publicações literárias de Ellen White entre 1888 e 1911 foram as seguintes: O Grande Conflito entre Cristo e Satanás durante A Dispensação Cristã (1888), Temperança (1890), Caminho a Cristo (1892), Obreiros Evangélicos (1892), Christian Education (1893), O Maior Discurso de Cristo (1896), Healthful Living (1897), O Desejado de Todas As Nações (1898), Parábolas de Jesus (1900), Educação (1903), A Ciência do Bom Viver (1905), Atos dos Apóstolos (1911).

33 Ellen White, O Desejado de Todas As Nações, p. 363.

34 Ibid.

35 Ibid.

36 Ibid.

37 John Skrzypaszek, “God’s Messenger — Australian Writings Motivate Worldwide: A Look at Ellen White’s life and Legacy,” Adventist World (October, 2015): 23.

38 Elzbieta, Halas, “Time and Memory: A Cultural Perspective,” TRAMES, 14(64/59, 2010): 314.

39 Ibid.

40 Ellen White, A Ciência do Bom Viver, p. 93.

41 Ellen White iniciou a preparação do livro Educação em 1897 durante a sua residência na Austrália. Antes de sua publicação em 1903, o filho de Ellen White, Willy White, enviou o manuscrito para o Professor Southerland em Emmanuel College pedindo comentários. O contexto da carta é muito revelador. “Você perceberá que, desde que você viu o manuscrito pela última vez, abrange um amplo espectro. Mais do plano da redenção tem sido trabalhado extraindo das obras publicada de minha mãe, tais como Patriarcas e Profetas, O Grande Conflito, O Desejado de Todas As Nações, O Maior Discurso de Cristo, e Parábolas de Jesus. Isto requer muito trabalho, mas esperamos que este livro seja suficientemente fortalecido para compensar tanto o trabalho quanto a demora.” Arthur White, The Early Elmshaven Years 1900-1905 (Washington, DC: Review and Herald, 1981), p. 181.

42 Ellen White, Educação, p. 13.

43 Ibid.

44 Ibid.

45 Ibid.

46 Ibid., p. 16

47 Ibid., p. 29.

48 Ibid., p. 17

49 Ellen White, A Ciência do Bom Viver, p. 25.

50 Walter Brueggemann, The Prophetic Imagination (Minneapolis, MN: Augsburg Press), p. 14.

51 Ellen G. White, Atos dos Apóstolos, p. 600.

52 Ibid.

53 Ellen White, O Grande Conflito, p. 678.

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